"É bonitinho, mas é egocêntrico" Leia Texto Que Bombou Na Web


Era bonito. Não bonito como Johnny Depp, mas bonito. Daquele tipo que a gente olha e sente vontade de chegar mais perto. Bem, eu cheguei. Perto o suficiente para perceber que a beleza era incrementada com uma dose de charme que só as pessoas interessantes exalam.

Um belo sorriso, um pouco de habilidade com as palavras e um gosto musical admirável: era suficiente. “Vamos tomar um vinho qualquer dia?” Fomos.

Ele tinha um quê posudo que a minha intuição não fora capaz de captar a primeira vista. Caminhou até o carro de espinha ereta, com feições de rei sabe-se lá do quê. “Você gosta dessa música? Eu ajudei a compor!” Que ótimo pra você, pensei, enquanto sorria mais simpaticamente do que pensei ser capaz.

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Me levou a um restaurante fino demais pro meu gosto e pra a simplicidade do meu vestido modesto. Se fez parecer o maior entendedor de vinhos do mundo falando da safra de 2013. Escolheu uma garrafa cara e se ofendeu quando eu fiz questão de dividir a conta.

“Eu sou Mestre em música pela Universidade não sei das quantas”, “eu adoro os cafés parisienses”, “você foi naquela palestra sobre música popular? Detestei, até eu faria melhor”, “vamos comigo a esse show? Meus amigos fazem muita questão da minha presença!” “eu não vi aquela peça, estava passando uma temporada na Europa!”, “você não fala inglês?”, “Sou fluente em Espanhol também”, “mas eu gosto mais de pratos mais elaborados”, “mas eu sou fã desse restaurante, mesmo sendo mais caro”, “mas eu…” ZzZZzZZ

Bocejei algumas dezenas de vezes enquanto já não fazia questão de parecer interessada. Pedi um prato simples que estava tão horrível quanto a companhia e inventei uma enxaqueca que me tirasse dali o quanto antes. “O meu apartamento tem uma vista linda e uma hidromassagem, podemos ir lá!” Não, obrigada.

Tomei um táxi. Não que eu não goste de homens interessantes, viajados e poliglotas, mas o que poucas pessoas compreendem – não ele, tenho certeza – sobre sofisticação é que ela tem muito mais a ver com essência do que com quantas línguas você fala. Importa mais o jeito como você trata o garçom do que quantas vezes você foi à Europa. Vale mais o quão sincero é o seu sorriso do que o que você entende sobre a safra de 2013.

Elegância tem a ver com sentir-se bem na própria pele, sem disfarces, sem máscaras posudas, sem espinha ereta. E toda e qualquer virtude é mais perceptível – e mais admirável, diga-se de passagem – se não estiver incansavelmente destacada por holofotes e luzes luminosas colocadas por seus portadores. E que seria muito mais interessante ficar sabendo depois, acidentalmente, que ele ajudara a compor aquela música.

Ser interessante vai além de ter bom gosto. É quando você sabe ouvir o outro, quando consegue, sem um esforço descomunal, tirar os olhos do próprio umbigo e enxergar o que o mundo tem a acrescentar. E quando você deixa de lado a necessidade de parecer magnífico, torna-se, quase sempre, inevitavelmente magnífico.

A beleza morre afogada no tédio do egocentrismo. O bom gosto parece forjado quando mencionado a cada três palavras. E o mais broxante da arte de ser intragavelmente metido a besta é que isso representa uma barreira intransponível para a única coisa que realmente me interessa em estar com alguém: me sentir a vontade.

O melhor de cada virtude é a descoberta. Pessoas realmente interessantes não precisam gritar isso aos quatro ventos: é notório nos modos, nas feições, nos comentários mais despretensiosos sobre qualquer coisa. E as pessoas – as mulheres, especialmente – sempre serão suficientemente observadoras para captar cada mínimo sinal de virtude em alguém que não faz questão de demonstrá-las a todo custo.

Depois de algum tempo rindo de todo aquele patético egocentrismo, um cara particularmente interessante – mesmo não mencionando a safra de 2013 – me convidou pra sair. “A gente pode se ver? Mas, olha, hoje eu tô duro, só rola um cinema!”

Sim. Agora sim.

Por Nathalie Macedo do Blog Casal Sem Vergonha

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